Criança feliz, feliz a brincar

Tempo de leitura: 3 minutos

Nestes meados de setembro, estava eu voltando de uma reunião em meio ao caótico zigue-zague de carros que poluíam um avermelhado entardecer paulistano, quando meu carro enfileirou ao lado de uma van escolar. Lá de dentro, uma menininha de não mais que 4 primaveras me olhou nos olhos. Uma criança linda!

Minha primeira reação e ação foi acenar. Como ela não retribuiu, embora ainda me olhasse, segui balançando a mão pra lá e pra cá. A cada metro que andávamos e parávamos, eu insistia no aceno mas ela não estava nem aí, nem se mexia... emoldurada com um fone que mais se parecia com dois biscoitos gigantes e recheados.

Enquanto continuava lhe acenando com um sorriso, fiquei me perguntando o que poderia estar escutando num fone, uma menininha tão “na flor da idade”, como dizia minha mãe...

E bastou lembrar dessa expressão materna para minha mente começar a desenrolar o novelo das lembranças da minha infância.

O grande barato de sair de carro com meu pai era justamente ir sentada no banco traseiro, com a janela aberta, dando tchau para todo mundo, curtindo muito quando as pessoas retribuíam e quando isso não acontecia, eu ficava extremamente chateada! Ainda bem que a maioria das pessoas dos carros de trás acenavam, compromisso que assumiam enquanto os carros seguiam no mesmo destino. E a cada tchau correspondido, eu me esbaldava de tanto rir.

(Claro que também rolavam inventivas caretas quando eu não ia com a cara de algumas pessoas ou quem sabe, detectava alguma energia estranha, vá saber... Mas era um gesto espontâneo, uma brincadeira despretensiosa bem gostosa.)

Mas voltando ao setembro de 2017, a menina da van não retribuiu o meu aceno. Realidade nua e crua, em nenhum momento esboçou sequer meio sorriso. Deve ter sido orientada que não deveria em hipótese alguma olhar ou falar com estranhos.

No meu tempo de Opala, em Teresópolis, era diferente:

- Cumprimenta o fulano, Sandra. Venha se despedir da senhora tal. Dá tchau pro carteiro.

Sinceridade? Fiquei com pena dessa criança. E com saudades da menina Sandra Mello, dos tempos em que trocar atitudes de gentileza era lugar comum e sair de carro tinha sabor de aventura. Às vezes íamos com os amigos fazendo farra na mala do carro, ninguém tinha insulfilme, mas tínhamos a proteção da Alegria divina.

Eu era bem extrovertida, não tinha medo de pessoas, gostava de abraçar, dar 3 beijinhos e torcia para o sinal fechar só para o meu pai parar o carro e poder acenar para as pessoas.

Segui meu caminho.

Curiosa que só, ficarei sem saber o que escutava a menininha, mas continuarei passando por todas as crianças, brincando com elas e acenando como sempre fiz.

Não vejo a menor graça ninguém, de qualquer idade, se locomover de carro, ônibus, trem, avião ou o que quer que seja com os olhos grudados no celular, computador ou tablete; a graça é apreciar o que se passa, quem passa e imaginar novas histórias. Faz tão bem interagir com personagens reais, receptivos aos acenos, sorrisos e piscadas de olho.

Começo a achar que meus pais estavam certos quando já falavam em tempos passados, “que viver era mais espontâneo e gostoso, antigamente...”

Fico imaginando que histórias essas crianças vão ter para contar.

Criança precisa brincar, interagir, acenar, fazer careta para tomar gosto com a vida e aprender a contar muitas histórias bem contadas.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.