Essência de professora

Tempo de leitura: 4 minutos

 

Escola Ginda Bloch. Teresópolis. Rio de Janeiro

Meu primeiro emprego. Professora de alfabetização de uma classe bem eclética composta por alunos de 7 a 14 anos, na mesma sala de aula, com o mesmo objetivo: APRENDER A LER.

Uau! O que fazer?

Minha intuição dizia que devia juntar todo mundo e levar para a praça em frente à escola, com pedras, lago, árvores, boa energia... haveria de ser um bom lugar para contar histórias; afinal, como ensinar as primeiras letras para um público tão diversificado e que já estava farto de tentar aprender com a cartilha que dizia que “vovô viu a uva.”

Pedra que inspirou ideias para a jovem professora

Deu certo! Em 7 meses, todos sabiam ler, escrever e... contar muitas histórias, especialmente de suas próprias vidas.

Eu tinha 17 anos e já estava completamente comprometida com a minha missão de fazer acontecer com os recursos que estivessem disponíveis no momento.

Missão cumprida, cheguei apressada ao cartório onde meu pai me esperava para assinar minha carta de alforria, que vinha no formato de uma certidão de emancipação, para que pudesse montar minha primeira empresa: Jardim Escola Cricri-Leco. (Vejam abaixo, o esboço que fiz para fazer o folheto de apresentação da escola).

 

Prospecto feito a mão. 1979

Não me perguntem de onde tirei esse nome, porque não tenho a menor ideia e até eu achava estranho... tanto quanto assinar um contrato social com a esposa de um aviador, psicopedagoga formada na França, na qual havia conversado apenas 3 vezes sobre o projeto da escola que queria montar e ela ficou tão entusiasmada que quis ser minha sócia.

Casa alugada, paisagismo contratado, parti para São Paulo no primeiro avião que saiu do Santos Dumont, naqueles idos de 1979, rumo a Chueri, uma fábrica de material educativo Montessoriano, que encheu com tamanho poder os meus olhos cor de mel, que não hesitei um único instante em preencher várias folhas de meu primeiro talão de cheques, para abastecer minha escola, em Teresópolis, com o que havia de mais primeiro mundo em termos de apetrechos pedagógicos.

De volta à terra do Dedo de Deus, com a casa alugada completamente repaginada, enchi o jardim de flores, adaptei todo o imóvel para ficar convidativo ao público alvo a que se destinava e marquei a data para o início das matrículas: 1 de dezembro de 1979.

Foram 4 semanas de puro prazer! Os pais vinham visitar a nova opção de ensino da  cidade e  eu contava cada detalhe de como os pequenos seriam respeitados e educados naquele lugar tão charmoso e já tão impregnado de alegria, vivacidade. Foram dias de muita realização. Cada vez que preenchia um formulário de matrícula, meus olhos se enchiam de lágrimas, de pura alegria.

Pena que a alegria durou pouco...

Alguns dias à frente, parou um carro no portão e dele desceu uma mulher esquisita, com ares de bruxa, que entrou pela casa, me estendeu um documento que dizia que eu tinha 7 dias para deixar aquele imóvel, pois seu filho, um salafrário de primeira linha, havia feito um contrato de locação “frio”, sem a  autorização dela, a legítima proprietária do imóvel.

Foi um corre-corre de advogados, amigos, pais dos 30 alunos já matriculados... mas nada adiantou. Tive que abrir mão deste sonho.

Depois disso, muita água passou embaixo da ponte do Rio Paquequer... ingressei na faculdade, continuei na Escola Ginda Bloch aprontando todas (festival de música, poesia, festas), passei no concurso público para lecionar em escolas estaduais, me formei em Letras, conheci Adolfo Bloch, mudei para o Rio de Janeiro, saí do magistério, fiz pós em marketing, conheci o universo editorial, o mundo dos roteiros e abracei dezenas de outros projetos, mas uma prerrogativa continuou sempre na mesma intensidade: manter o entusiasmo, mesmo quando os recursos financeiros não acompanhavam a planilha de custos e precisava contornar com o que estivesse à altura das mãos.

Hoje, relembrando essas passagens da minha vida, tenho plena consciência que muitos dos meus sonhos tornaram-se realidade graças à essa minha essência de professora, que me fez acreditar e ousar, munida muitas vezes apenas de criatividade e  brilho nos olhos.

Foi através da minha experiência como professora que aprendi a acreditar que tudo vale a pena se é capaz de provocar mudança de comportamento, ou seja, transformar em ação.

(sandra mello | escritora | roteirista | biógrafa | orientadora de biografia humana e mãe do Bernardo.)

2 Comentários


  1. Amei relembrar todo o seu crescimento minha querida amiga e comadre, inclusive porque a vida nos fez caminhar lado a lado por longos anos e os sentimentos de alegria ou de dor foram compartilhados com muita intensidade.
    Parabéns pelas suas escolhas!!!
    Parabéns pela bela profissional que você é!!!
    Que você se supere mais a cada dia nesse infinito mundo de eterna transformação.
    Te amo.

    Responder

    1. Quando vc me enviou esse folheto do Cricri-Leco pelo whatsaspp fiquei tão emocionada que o salvei em lugar de destaque, pensando que um dia ilustraria um texto sobre essa passagem da minha vida.
      Chegou esse Dia do Professor de 2016 e essa história voltou à memória com força total!
      Vc faz parte viva desse crescimento e sou muito feliz pela sua existência carinhosa e fraterna ao meu lado. SEMPRE!
      Amor recíproco!
      Beijo e obrigada pelas lindas palavras.

      Responder

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