Ideologia de professora no DNA, criatividade à flor da pele

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Ideologia de professora no DNA, criatividade à flor da pele

Recebi um link pelo Facebook, de uma sobrinha muito querida, Alessandra, contendo um vídeo que em dado momento mostra um clipe da Banda Blitz, com Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Márcia Bulcão, Billy Forghieri, Ricardo Barreto e Antônio Pedro, gravado nas dependências e arredores da Escola Ginda Bloch.

Esse vídeo foi exibido na inauguração da TV Manchete, num especial chamado Mundo Mágico, em junho de 1983 e muitas das crianças que correm atrás da banda Blitz eram meus alunos na época.

As imagens deste vídeo resgataram lembranças gostosas e uma saudade incrível do início da minha carreira profissional, na qual trabalhava como professora.

Meu primeiro emprego foi como professora concursada da Prefeitura de Teresópolis, e fui cumprir minha missão justamente na Escola Ginda Bloch, uma doação de Adolpho Bloch para a minha cidade natal.

A minha tarefa era alfabetizar uma turminha bem eclética: alunos de 7 a 14 anos, na mesma sala de aula, com o mesmo objetivo: aprender a ler e escrever as primeiras histórias.

Uau! O que fazer?

Minha intuição dizia que devia juntar todo mundo e levar para a praça, lá tinha pedras, lago, árvores e haveria de ser um bom lugar para contar histórias. Afinal, como ensinar as primeiras letras para um público tão cheio de energia e que já estava farto de tentar aprender com a cartilha que dizia que “vovô viu a uva.”

Deu certo! Em 7 meses, todos sabiam ler, escrever e... cultivar histórias bem contadas.

Eu tinha 17/18 anos e já estava completamente comprometida com a minha missão de fazer acontecer, com os recursos que estivessem disponíveis no momento.

Cheguei apressada ao cartório onde meu pai me esperava para assinar minha carta de alforria, que vinha no formato de uma certidão de emancipação, para que pudesse montar minha primeira empresa: Jardim Escola Cricrileco.

Não me perguntem de onde tirei esse nome, porque não tenho a menor ideia e até eu achava estranho... tanto quanto assinar um contrato social com a esposa de um aviador, psicóloga, formada na França, que conversei apenas 3 vezes, contei sobre o projeto da escola e quis ser minha sócia a qualquer custo.

Casa alugada, paisagismo contratado, parti para São Paulo no primeiro avião que saiu do Santos Dumont, naqueles idos de 1979, rumo a Chueri, uma fábrica de material educativo Montessoriano, que encheu com tamanho poder os meus olhos cor de mel, que não hesitei um único instante em preencher várias folhas de meu primeiro talão de cheques, para abastecer minha escola, em Teresópolis, com o que havia de mais primeiro mundo em termos de apetrechos pedagógicos.

De volta à terra do Dedo de Deus, com a casa alugada completamente repaginada, enchi o jardim de flores, adaptei todo o imóvel para ficar convidativo ao público alvo a que se destinava e marquei a data para o início das matrículas: 1 de dezembro de 1979.

Foram 4 semanas de puro prazer! Os pais vinham visitar a nova opção de ensino da cidade e eu contava cada detalhe de como os pequenos seriam respeitados e educados naquele lugar tão charmoso e já tão impregnado de alegria, vivacidade. Foram dias de muita realização. Cada vez que preenchia um formulário de matrícula, meus olhos se enchiam de lágrimas, de pura alegria.

Pena que a alegria durou pouco... um dia parou um carro no portão e uma mulher esquisita e com ares de bruxa entrou pela casa, me estendendo um documento que dizia que eu tinha 7 dias para deixar aquele imóvel, pois seu filho, um salafrário de primeira linha, havia feito um contrato de locação “frio”, sem a autorização dela, a legítima proprietária do imóvel.

Foi um corre-corre de advogados, amigos, pais dos 30 alunos já matriculados... mas nada adiantou. Tive que abrir mão deste sonho.

Depois disso, muita água passou embaixo da ponte do Rio Paquequer... ingressei na faculdade, continuei na Escola Ginda Bloch aprontando todas (festival de música, poesia, festas), passei no concurso público para lecionar em escolas estaduais, me formei em Letras, conheci Adolpho Bloch, ajudei a organizar o clipe da Blitz, mudei para o Rio de Janeiro, saí do magistério, comecei a trabalhar na TV Manchete, aprendi muito com o meu primeiro chefe lá - Arnaldo Niskier, conheci o marketing, o mundo da pesquisa, o mundo dos roteiros e abracei centenas de outros projetos, mas uma prerrogativa continuou sempre na mesma intensidade: manter o entusiasmo, mesmo quando os recursos financeiros não acompanhavam a planilha de custos e precisava contornar com o que estivesse à altura das mãos.

Hoje, escrevendo esse post tenho plena consciência que muitos dos meus sonhos tornaram-se realidade graças à essa minha essência de professora, que me fez acreditar e ousar, munida muitas vezes apenas de criatividade e brilho nos olhos.

Viver no mundo das histórias bem contadas é isso! Acreditar que tudo vale a pena se é capaz de provocar mudança de comportamento, ou seja, transformar em ação.

Quem quiser assistir o vídeo, segue o link. O clipe da banda está em 1’23”00, mas quem quiser assistir inteiro vai relembrar de muitas histórias...

 https://www.youtube.com/watch?v=MjhW1AFwqug

 

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