Será que existe uma experiência mais significativa do que viajar pela própria história de vida?

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Nestes tempos de pandemia, em que as viagens estão proibitivas, as pessoas andam pensando mais na vida, nos momentos felizes e tristes vividos até aqui, vivem ligadas com um olho aberto no presente e piscando o outro para o futuro, sentem-se ansiosas e inseguras sobre como vai ficar o mundo, a família, o trabalho... em meio a tudo isso, fico imaginando como seria enriquecedor se as pessoas pudessem dedicar um tempo para rememorar as histórias já vividas até aqui desde a infância ou desde àquelas que melhor lembrar.

Para aquecer a conversa, acho que vale dizer algo mais provocativo, que possa inspirar a pensar melhor no assunto: “nenhuma viagem neste momento vai fazer mais sentido do que viajar pela sua própria biografia!"

Será, Sandra? Será que em um ano com tantas restrições, com tantas incertezas, as pessoas teriam serenidade para rememorar suas histórias? (Tudo bem, eu sei que você não está acreditando, mas leia mais um pouquinho... vai que eu consigo te convencer... e cá entre nós, eu levo o maior jeito para convencer as pessoas sobre um monte de coisas; vai que...)

Minha intuição me sinaliza que sim, porque as pessoas vão a cada dia valorizar mais os momentos passados em família, as viagens que realizaram, as conquistas profissionais, os projetos que conseguiram emplacar, as histórias de amor, os propósitos alcançados e os que ainda precisam ser batalhados, as lembranças da infância e da adolescência...  Valorizar a vida passou a ser a bola da vez! Simples assim.

Mas será que até aquelas pessoas que sempre enxergam as coisas meio cinzas, mesmo quando o céu está azul da cor do mar, será que até essas pessoas gostariam de viajar pela própria história de vida?

Bem, por conta da minha profissão de roteirista e biógrafa, eu converso com homens e mulheres de todas as idades, especialmente entre as faixas de 35 e 80 anos, dos mais variados níveis profissionais, sociais e emocionais e todos, eu disse TODOS, sempre que começam a me contar sobre as suas histórias de vida, trazem dentro de si, muito bem guardado, algo muito significativo, bacana, que quanto mais alguém se interessa em formular novas perguntas, as respostas vão se transformando em esperança renovada, maior capacidade criativa, uma sensação de dever de casa bem feito, de banho tomado, de vontade de realizar muito mais coisas para ter ainda mais história para contar, esbarrar em novos personagens, desbravar novos cenários.

Sabe por que isso acontece?

Porque quando alguém presta atenção na história da gente e faz perguntas de um jeitinho que ninguém nunca tinha feito igual antes, o cinza se transforma em azul e pinta um baita orgulho no peito de ser exatamente do jeito que é ou de ter a oportunidade de reviver a mesma história com outros olhos, ressignificando a essência.

Agora imagina você poder embarcar nessa “viagem tão bacana” e descobrir belezas naturais suas que nem fazia a menor ideia que estavam aí, bem embaixo do seu nariz, do lado esquerdo do peito. Priceless!

PAUSA.

Anos atrás, na verdade mais de vinte anos, o poeta Manoel de Barros lançou o seu livro Retrato do Artista Quando Coisa, que trazia um poema que nunca mais saiu da minha cabeça e eu acho que vai colar na sua também!

Pode ler em voz alta que dá uma sensação ainda mais gostosa:

“A maior riqueza do homem é a sua INCOMPLETUDE.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou – eu não

aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre

portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser OUTROS.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.”

Então...

A gente passa parte da vida com a estranha sensação de que a vida das pessoas que conhecemos e mesmo as daquelas que só conhecemos através das redes sociais ou da mídia é muito mais bacana e completa do que a nossa, que não queremos passar a vida inteira fazendo as coisas que fazemos e sim fazer as coisas maravilhosas que supomos que as outras pessoas possam estar fazendo... (pelo menos na nossa cabeça, só na vida da gente é que o dinheiro some quando mais precisamos dele, só os nossos pais não nos compreenderam quando mais precisamos, só o nosso salário não aguenta chegar até o dia 20, só a gente se apaixona pela pessoa errada, não é verdade?)

Bom, na juventude, lá pelo nosso terceiro setênio ou terceiro ciclo de 7 anos de vida (do dia que nascemos até os 21 anos), eu até acho comum pensar dessa forma, afinal que adolescente não se sente deslocado ou “cancelado” para curtir a vida numa boa como os outros curtem ou aparentam curtir.

Só que chega uma hora em que é muito mais “da hora” deixar de cobiçar a biografia alheia e prestar mais atenção na própria trajetória biográfica.

Os sonhos realizados, os romances de contos de fadas, a carreira brilhante, as férias arrebatadoras, as festas top 10 que tanto imaginamos que devem fazer as outras pessoas serem mais felizes ou melhores do que nós, são apenas frutos da nossa imaginação, que é contaminada todos os dias por memes patrocinados, por um turbilhão de informações desencontradas e fake news.

A vida real é cheia de INCOMPLETUDES e que bom que é assim, afinal isso nos motiva a querer avançar, cruzar novos horizontes e, à medida que a linha do tempo da nossa história vai caminhando no tempo real, descobrimos que não é só com a gente que acontece coisa esquisita. Acontece com todo mundo e tantas vezes são coisas extremamente mais esquisitas do que o que tivemos que enfrentar.

Ninguém vive em um mundo de faz-de-conta e é muito libertador descobrir isso sem precisar fazer de conta que a história não é com a gente; pelo contrário, nós somos o personagem protagonista da história.

É reconfortante descobrir que tudo que vivenciamos na vida conta ponto, vai nos levar a algum lugar, ao encontro de alguém e acrescentar novos conteúdos.  Isso nos ajuda a criar contextos mais criativos, falar das nossas experiências com maior propriedade e desenvoltura, reconhecer os nossos reais valores, e, sem dúvida, poderá contribuir para sermos mais representativos na vida corporativa, exercendo lideranças mais humanizadas.

Então, eu acho que está mais do que na hora da gente largar de ser sem graça porque a nossa história de vida tem muita graça, sim! E cada um de nós inclusive já recebeu muitas graças, de graça, e esqueceu de computar o valor ou melhor, os valores que isso nos acrescentou.

As brincadeiras infantis, os amigos de cada fase, os melhores professores, as fantasias, o primeiro amor, as furadas, os livros, as músicas, as escolhas profissionais, tudo isso merece fazer parte da sua biografia aberta, das suas histórias de vida, cheias de vida.

Duvido que vai ter alguém que não vá querer saber detalhes dessa sua viagem!

Duvido que exista algum tema mais excitante do que a sua história de vida e as centenas de coisas que fizeram de você uma pessoa única e extraordinária.

Será que as pessoas que vivem postando fotos glamorosas no Instagram têm uma vida mais valorosa do que a sua?

Mas nem que a vaca tussa! (Como dizia a minha avó!)

Creia... as coisas mais maravilhosas do mundo particular de cada ser humano aconteceram e vão continuar acontecendo na biografia real das dessas pessoas. A força da biografia de uma pessoa é o bem mais precioso e é tão forte, poderoso, que é capaz de se transformar na viagem mais espetacular de todos os tempos, sem precisar passar pelo estresse dos aeroportos e pontos turísticos.

Então, voltando à ideia inicial, vou um pouquinho mais longe... como seria incrível se as empresas pegassem carona com esse momento reflexivo que o mundo todo está sendo submetido, se humanizassem um pouco mais e começassem a prestar mais atenção nas histórias de vida de seus colaboradores. Melhor ainda, e se proporcionassem a oportunidade para eles poderem viajar na própria história para renovar a energia e revitalizar os sonhos?

Tudo o que os colaboradores das empresas já viveram até aqui, e não me importa que idade eles tenham, é fruto da dádiva que eles receberam no momento em que nasceram, e eles vão ser pessoas muito mais realizadoras e bem resolvidas, se puderem viver a experiência de compartilhar as próprias histórias em seus círculos de convivência.

E sabe o que isso vai causar quando começar a acontecer?

Cada pessoa que passar por esta experiência biográfica vai perceber que chegou aonde chegou por um motivo muito especial: é importante e faz a diferença! Realiza o que precisa realizar, simplesmente se permitindo ser quem é, deixando a autorrealização se pronunciar.

E cá entre nós, ninguém pode ensinar a outra pessoa sobre a própria realização, mas viajar pela própria biografia da vida motivada pelo RH ou pelo marketing da empresa em que trabalha por exemplo, pode mostrar o quanto a pessoa contemplada foi capaz de realizar coisas incríveis na vida pessoal e profissional, e como ela é importante no contexto que atua.

Vai ser tão ponto fora da curva quando acontecer, que por si só já será o maior acontecimento. Empresas reconhecendo os valores, as aptidões e os verdadeiros talentos de seus colaboradores.

E, melhor dos mundos, quando as outras pessoas da empresa se conectarem com a história em evidência, elas vão perceber que também podem realizar a mesma viagem... e é assim que realização vai se multiplicar.

Nossa biografia é o nosso verdadeiro “passaporte” que contém o carimbo de todos os destinos por onde passamos e o que de fato realizamos.

Acho que está mais do que na hora de todas as empresas começarem a pensar em premiar seus melhores talentos com um voucher que contenha três coisas impagáveis e mais do que nunca, cobiçadíssimas: autoconhecimento, autoestima e soberania de ser quem é.

Afinal, não existe viagem mais interessante e com tamanho potencial para angariar inúmeros seguidores do que a biografia que começamos a roteirizar assim que nascemos!

 (Sandra Mello é biógrafa, roteirista, mentora biográfica, fundadora da SMA2 Editora e tem verdadeira paixão por histórias bem contadas.)

 

 

 

 

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